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Potencial Anabólico e Androgênico dos Esteroides: como interpretar as classificações teóricas – Por Gabriel Tejada

Entenda o que significam as classificações anabólica e androgênica atribuídas aos esteroides anabolizantes e por que esses números não devem ser interpretados como uma previsão direta dos efeitos em humanos - Por Gabriel Tejada

Potencial Anabólico e Androgênico dos Esteroides: como interpretar as classificações teóricas – Por Gabriel Tejada

As tabelas que apresentam diferentes esteroides anabolizantes acompanhados de valores de “potencial anabólico” e “potencial androgênico” são bastante populares na internet. Elas costumam colocar testosterona, nandrolona, drostanolona, metenolona, estanozolol, trembolona e diversos outros compostos lado a lado, atribuindo números que supostamente permitem comparar seus efeitos.

Entretanto, existe um ponto fundamental que precisa ser entendido: esses números não representam uma escala clínica universal capaz de prever exatamente o que acontecerá em um ser humano.

O objetivo deste artigo, por Gabriel Tejada, é explicar o que existe por trás desses conceitos e por que uma classificação teórica de potencial anabólico e androgênico não deve ser confundida com o comportamento de um esteroide na prática.

O que significa “anabólico” e “androgênico”?

Os termos anabólico e androgênico descrevem diferentes dimensões da atividade dos andrógenos.

Atividade anabólica está relacionada principalmente à capacidade de estimular processos de construção e manutenção de tecidos, especialmente o tecido muscular, além de efeitos sobre outros tecidos como o osso.

Atividade androgênica está relacionada aos efeitos associados à diferenciação e manutenção de características sexuais masculinas. Isso inclui efeitos sobre tecidos como próstata, órgãos reprodutivos, pelos e pele.

Na realidade biológica, porém, essas duas propriedades não são completamente separadas. A própria literatura endocrinológica descreve os esteroides anabolizantes-androgênicos como compostos que apresentam os dois tipos de atividade em diferentes graus.

Por que existe uma classificação de “anabólico versus androgênico”?

 

Historicamente, pesquisadores procuraram desenvolver derivados da testosterona capazes de preservar efeitos anabólicos, principalmente sobre o músculo, enquanto reduzissem determinados efeitos androgênicos.

Essa busca levou ao desenvolvimento de diversos esteroides sintéticos e também, posteriormente, de moléculas que tentam produzir maior seletividade sobre o receptor androgênico.

Uma parte importante das primeiras comparações entre esteroides utilizava modelos animais. O chamado ensaio de Hershberger, por exemplo, avalia alterações em tecidos sensíveis aos andrógenos, incluindo próstata, vesículas seminais e músculos como o levantador do ânus. Esse tipo de modelo permite comparar a atividade de diferentes compostos em condições experimentais controladas.

Isso é importante porque ajuda a entender de onde surgiu a ideia de atribuir valores diferentes para atividade anabólica e androgênica.

O problema de transformar isso em uma tabela numérica

É aqui que a tabela apresentada por Gabriel Tejada precisa ser interpretada com cautela.

Ela apresenta, por exemplo, testosterona com valores de 100 para atividade androgênica e 100 para atividade anabólica, enquanto outros compostos recebem valores muito diferentes. Alguns aparecem com números bastante elevados, enquanto outros apresentam intervalos.

Esses números podem ser úteis como uma referência histórica ou conceitual, mas não devem ser interpretados como se fossem uma escala universal de potência farmacológica em seres humanos.

Não existe uma regra segundo a qual um esteroide com “400” de atividade anabólica produzirá exatamente quatro vezes determinado efeito de um esteroide classificado como “100”. Da mesma forma, um número menor na coluna androgênica não significa necessariamente que determinado composto produzirá proporcionalmente menos efeitos androgênicos em uma pessoa.

Por que a prática pode ser diferente da teoria?

O efeito final de um esteroide depende de muito mais fatores do que simplesmente sua ligação ao receptor androgênico.

Entre esses fatores estão:

  • afinidade pelo receptor androgênico;
  • atividade intrínseca sobre o receptor;
  • dose e exposição ao composto;
  • via de administração;
  • meia-vida e farmacocinética;
  • conversão para outros metabólitos;
  • atividade da 5α-redutase;
  • aromatização para estrogênios, quando aplicável;
  • concentração de SHBG e outras proteínas transportadoras;
  • distribuição do receptor nos diferentes tecidos;
  • expressão de cofatores e correceptores;
  • estado hormonal individual.

Revisões modernas mostram justamente que a atividade dos esteroides é muito mais complexa do que simplesmente classificá-los em uma escala linear. A estrutura química pode modificar a afinidade pelo receptor, o metabolismo, a farmacocinética e a maneira como diferentes tecidos respondem à molécula.

O receptor androgênico é apenas uma parte da história

Os esteroides anabolizantes-androgênicos conseguem atravessar as membranas celulares e alcançar seus tecidos-alvo. Dentro das células, podem se ligar ao receptor androgênico ou sofrer transformações metabólicas que modificam sua atividade.

Quando o receptor androgênico é ativado, ocorre uma sequência de eventos que pode modificar a expressão de determinados genes. O resultado final depende do tecido, da molécula utilizada e do ambiente celular.

Esse é um dos motivos pelos quais dois esteroides que apresentam atividade sobre o mesmo receptor podem produzir perfis biológicos diferentes.

Uma revisão publicada em 2026 destaca justamente esse problema: pequenas modificações na estrutura química dos esteroides podem alterar afinidade pelo receptor, metabolismo, estabilidade e características de ação nos tecidos.

Testosterona: o ponto de referência

A testosterona costuma ser utilizada como referência para comparação porque é o principal andrógeno endógeno masculino.

Entretanto, até mesmo a testosterona demonstra por que uma classificação simples não é suficiente.

Em determinados tecidos, a testosterona pode ser convertida pela 5α-redutase em di-hidrotestosterona, ou DHT. Em outros tecidos, pode ser convertida pela aromatase em estradiol.

Isso significa que o efeito biológico da testosterona não depende apenas da quantidade de testosterona presente, mas também do que cada tecido faz com essa testosterona.

Por que nandrolona, drostanolona e metenolona podem apresentar comportamentos diferentes?

As modificações estruturais presentes em cada molécula alteram seu metabolismo e sua interação com o organismo.

A nandrolona, por exemplo, é um derivado 19-nor da testosterona. Um dos mecanismos clássicos utilizados para explicar seu perfil relativamente mais miotrópico em determinados modelos envolve sua conversão pela 5α-redutase em um metabólito menos potente androgenicamente, enquanto a testosterona é convertida em DHT, que apresenta maior atividade androgênica em determinados tecidos.

Já compostos derivados de DHT, como a drostanolona e a metenolona, possuem estruturas que alteram sua interação com as vias metabólicas presentes na testosterona.

Isso ajuda a explicar por que simplesmente olhar para uma coluna chamada “androgênico” não é suficiente para prever todos os efeitos de um composto.

O que significa a coluna “potencial DHT”?

Outro ponto que merece atenção na tabela é a associação entre atividade androgênica e “potenciais efeitos DHT”.

Essas coisas não são necessariamente equivalentes.

A DHT é um metabólito específico da testosterona produzido pela ação da 5α-redutase. Portanto, um composto pode apresentar atividade androgênica sem necessariamente precisar ser convertido em DHT.

Além disso, diferentes tecidos possuem diferentes níveis de enzimas e receptores. A própria literatura mostra que o metabolismo local dos andrógenos pode alterar significativamente o resultado observado em cada tecido.

O potencial anabólico não significa necessariamente ganho muscular proporcional

Esse é provavelmente o maior erro na interpretação dessas tabelas.

Um valor elevado de potencial anabólico em um modelo experimental não significa que uma pessoa necessariamente terá um determinado percentual de aumento de massa muscular.

O crescimento muscular humano depende da interação entre sinalização hormonal, treinamento, disponibilidade energética, ingestão proteica, recuperação, genética e diversos outros fatores.

Além disso, estudos experimentais podem utilizar doses, espécies animais, vias de administração e períodos de exposição completamente diferentes daqueles encontrados na prática clínica.

Portanto, potência farmacológica, atividade anabólica em um modelo experimental e resultado estético em humanos são conceitos diferentes.

Por que alguns números da tabela são tão extremos?

Na tabela apresentada, alguns compostos aparecem com valores extremamente elevados de atividade anabólica ou androgênica.

Isso não significa necessariamente que esses compostos sejam milhares de vezes mais eficazes para construir músculo ou milhares de vezes mais capazes de produzir efeitos androgênicos em humanos.

Esses valores podem refletir diferentes sistemas de referência, modelos experimentais, métodos de cálculo ou fontes históricas utilizadas para construir a tabela.

Além disso, diferentes estudos podem produzir resultados diferentes dependendo do método utilizado. Existem inclusive trabalhos históricos que questionaram a utilização de determinados modelos, como o músculo levantador do ânus, como medida isolada de atividade anabólica.

Então a tabela está errada?

Não necessariamente.

O mais correto é dizer que a tabela não deve ser tratada como uma tabela clínica de potência humana.

Ela pode funcionar como uma representação teórica das diferenças observadas entre determinados compostos em modelos experimentais ou classificações históricas. O problema começa quando esses números são utilizados como se fossem uma escala universal capaz de prever exatamente os resultados de cada esteroide em seres humanos.

Para Gabriel Tejada, essa distinção é particularmente importante porque tabelas desse tipo são frequentemente compartilhadas nas redes sociais sem qualquer explicação sobre sua origem ou metodologia.

Existe realmente uma separação entre efeito anabólico e androgênico?

Existe uma diferença conceitual, mas ela não é absoluta.

Pesquisadores há décadas tentam encontrar moléculas capazes de aumentar os efeitos anabólicos sobre músculo e osso enquanto reduzem efeitos androgênicos em outros tecidos. Essa busca também contribuiu para o desenvolvimento dos chamados moduladores seletivos do receptor androgênico, ou SARMs.

Entretanto, mesmo a ideia de seletividade deve ser interpretada com cautela. Uma revisão recente destaca que diferenças aparentes entre efeitos anabólicos e androgênicos podem resultar de metabolismo específico dos tecidos, diferenças na conformação do receptor e interação com diferentes correceptores, e ainda não está completamente estabelecido quanto dessa seletividade se traduz em benefícios clinicamente relevantes em humanos.

O que podemos concluir sobre essa tabela?

A tabela é interessante para demonstrar que os esteroides não são moléculas biologicamente idênticas. Pequenas alterações na estrutura química podem modificar metabolismo, afinidade pelo receptor, atividade anabólica, atividade androgênica e interação com diferentes tecidos.

Porém, os números apresentados devem ser considerados teóricos, experimentais ou históricos, e não como uma previsão direta do resultado que determinado esteroide produzirá em um ser humano.

Um composto classificado como mais anabólico não necessariamente produzirá proporcionalmente mais massa muscular. Um composto classificado como menos androgênico não necessariamente estará livre de efeitos androgênicos. E um composto com determinado valor de “DHT” não necessariamente se comportará como a própria DHT.

Como explica Gabriel Tejada, a melhor maneira de interpretar essas tabelas é utilizá-las como ponto de partida para compreender a farmacologia dos esteroides, e não como uma calculadora de resultados.

Em última análise, compreender um esteroide exige analisar sua estrutura química, interação com o receptor androgênico, metabolismo, farmacocinética, conversões enzimáticas e efeitos observados em estudos humanos. A literatura moderna reforça que a relação entre estrutura molecular e efeito biológico é complexa e depende do contexto celular e do tecido analisado.

Uma observação importante sobre os riscos

O potencial anabólico de um esteroide não deve ser analisado isoladamente de seu perfil de segurança. Os esteroides anabolizantes-androgênicos podem estar associados a alterações cardiovasculares, pressão arterial, perfil lipídico, supressão hormonal, alterações hepáticas em determinados compostos e outros efeitos adversos.

Portanto, uma classificação elevada de potencial anabólico não representa automaticamente uma vantagem terapêutica ou esportiva, assim como uma classificação menor de androgenicidade não significa ausência de efeitos adversos.

O principal objetivo dessa tabela, portanto, deve ser didático: mostrar que diferentes moléculas possuem diferentes perfis farmacológicos. Para Gabriel Tejada, essa é a maneira mais adequada de interpretar esses números sem transformar uma classificação experimental em uma promessa de resultado clínico ou estético.